Por Isaac Edington,
Secretário Municipal para Copa do Mundo da FIFA Brasil 2014™
na Prefeitura de Salvador

 

Geni e o Zepelim é uma composição de Chico Buarque que fez parte da Ópera do Malandro, musical lançado em 1978, quando eu tinha 15 anos de idade. A letra descreve um episódio ocorrido com Geni, travesti que era hostilizada por todos na cidade. Diante de uma ameaça de ataque de um Zepelim, o comandante se encanta com os dotes de Geni, que acaba sendo provisoriamente tratada de modo diferenciado pelos seus detratores. Passada a ameaça, ela retorna ao seu dia a dia normal e continua recebendo muitas ofensas das pessoas, revelando o caráter pseudo-moralista e hipócrita da sociedade.


A canção teve tal relevância que o refrão “Joga pedra na Geni” se transformou numa espécie de bordão, indicando como Geni pessoas e conceitos que, em determinadas Circunstâncias políticas, eram alvo de execração pública, ainda que de forma transitória ou volátil.
Pois bem, a Copa do Mundo de 2014 no Brasil virou a Geni da atualidade para muitos. É pedra para todo lado. Para a Fifa, para a presidente Dilma e para governos federal, estaduais e municipais. Para os políticos de uma maneira geral. São jogadas pedras também para a falta de hospitais, pelos problemas na educação, a corrupção e a ausência de projetos estruturantes. O apedrejamento para a falta de mobilidade urbana é um dos favoritos e campeões de postagem nas redes sociais. Tudo feito de forma instintiva, automática. Ótimo para puxar assunto, seja em mesa do mais simples boteco ou nas altas rodas. Não interessa. Nós conseguimos até democratizar a pedrada. Jogar pedra na Geni é para todos, independentemente de raça, credo ou ideologia.


E tudo isso foi colocado na “conta” da Copa do Mundo em nosso país. Como se a Copa fosse depositária de todas as mazelas do Brasil, oriundas de décadas e décadas.
A Copa não criou essas mazelas e também não irá solucioná-las. Em poucos dias o Brasil vai receber o mais desejado evento do mundo, assistido por nada menos que a metade do planeta e que proporcionará grande oportunidade de promoção das cidades sedes. Iremos receber em nosso país um monte de gente ávida por assistir aos jogos, mas, também, querendo diversão, turismo, conhecer o que temos de melhor.Agora, gostaria que você refletisse um pouco sobre o que vou falar.

 

Vamos lá: você está dando uma festa em sua casa, recebendo convidados e se preparou antecipadamente para o evento. Mas, apesar da importância da festa, você não teve tempo de fazer todos os preparativos que imaginou. E, no momento da festa, diante de todos, no auge da celebração, um familiar começa a discutir a relação, brigar, fazer queixas dos cônjuges, filhos ou parentes para todos os seus convidados. E, ao mesmo tempo, organiza uma barricada à entrada do prédio, impedindo os demais moradores do edifício e os próprios convidados de terem acesso à festa. Então, inicia um confronto violento com o vigia do prédio (que garante a segurança durante os demais 364 dias do ano), que tentava desobstruir a passagem e, para completar, contrata alguns baderneiros para ajudar a vandalizar a portaria e tocar fogo no elevador. Tudo isso como forma de pressão para resolver os problemas do condomínio.


Analisando os fatos hipotéticos, creio que a cena surreal descrita dificilmente acontecerá na vida de sua família. Não faz o mínimo sentido. Embora, deixo a critério da sua memória e reflexão, talvez esses fatos possam lhe parecer familiares, se substituirmos os atores e trocarmos o cenário para as nossas cidades.
Como não faz sentido, também, colocarmos todas as mazelas do nosso querido e complexo país de forma fácil e rasteira em uma conta só: a da Copa do Mundo 2014. É claro que estamos todos insatisfeitos com muita coisa e temos razões de sobra para nos indignar com os rumos de nosso país em muitos aspectos. Mas será que a melhor forma de mudarmos o Brasil é estragarmos esse momento tão esperado por toda uma geração e colocarmos, como se diz no jargão popular, “gosto ruim” em tudo que se relaciona à Copa? Pense nisso antes de continuar jogando pedra na Geni.

 

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