Isaac Edington, secretário do Escritório Municipal de Copa do Mundo Fifa 2014 da Prefeitura de Salva dor, fala com exclusividade para a Revista ANEFAC sobre o planejamento e a execução que envolvem os megaeventos esportivos. Nomeado em janeiro pelo novo governo da capital baiana, ele assume a responsabilidade há menos de três meses da Copa das Confederações, e há pouco mais de um ano da Copa do Mundo. Aqui, comenta quais as  principais dificuldades e como Salvador pretende usar a oportunidade para se consolidar como importante destino turístico das Américas.

 

Revista ANEFAC: O planejamento costuma ser mais fácil que a execução?

Isaac Edington: Não concordo que o planejamento seja mais fácil que a execução. Arrisco dizer que, na cultura brasileira, a falta de planejamento e, especialmente acompanhada de uma visão de futuro, criam verdadeiras barreiras para o nosso desenvolvimento. Entretanto, precisamos também melhorar em muito na arte da execução. Chega de improviso.

 

R.A.: Desde que se iniciaram os preparativos para a Copa das Confederações, que acontece em junho deste ano, e para a Copa do Mundo 2014, como se deu a complementaridade entre as fases de planejamento e de execução?

I.E.: Estou respondendo a essa entrevista numa fase muito complexa para a cidade de Salvador. O nosso governo, que se iniciou em 2 de janeiro, está tendo que lidar com prazos bastante curtos para a hora “H”, a hora da execução. Estamos trabalhando muito, não só para executar o que foi planejado, como também para planejar o que não foi planejado e para planejar e executar o que já deveria ter sido planejado e executado. Além de lidarmos com uma grande escassez de recursos e uma máquina administrativa muito precária. Essa é a nossa realidade. Entretanto, estamos empenhados em superar todas essas dificuldades.

 

R.A.: Quais foram as dificuldades encontradas na execução e que não haviam sido previstas durante o planejamento?

I.E.: O orçamento municipal elaborado na gestão anterior, que encontramos quando assumimos em janeiro, é uma das maiores dificuldades. Ele definitivamente não retratou a realidade da cidade, tampouco a Copa das Confederações e os preparativos para a Copa do Mundo.

 

R.A.: Qual foi a principal demanda enfrentada para deixar Salvador pronta para os eventos esportivos?

I.E.: Na minha opinião, as demandas mais complexas são a Arena Fonte Nova, pois sem ela não teríamos os jogos, é claro, e o Plano de Mobilidade Urbana.

 

R.A.: Em que estágio está a execução? O que ainda está faltando?

I.E.: A Arena Fonte Nova, que é um consórcio entre empresas privadas e o governo do estado, está quase pronta. Final de março teremos um belo equipamento, de extrema relevância para a nossa cidade. O Plano de Mobilidade Urbana está pronto. Aliás, considero um exemplo de planejamento multissetorial. Extremante complexo, elaborado por técnicos da prefeitura, governo do estado, Fifa e o Comitê Local dos jogos.

 

R.A.: Pode-se dizer que a Copa das Confederações funciona como um estágio, um teste para verificar se a execução das obras para a Copa do Mundo está sendo eficiente?

I.E.: Não podemos considerar a Copa das Confederações como um teste, de forma alguma. Será para valer. É uma oportunidade extraordinária para a nossa cidade e não podemos relaxar. Temos que nos aplicar para fazer o melhor. Isso acontecendo, faremos uma Copa do Mundo melhor ainda.

 

R.A.: Após a Copa das Confederações, qual será o foco das obras e investimentos?

I.E.: Concluir as obras de infraestrutura, requalificação de espaços urbanos, ordenamento do trânsito e do comércio, melhorar a iluminação. Tornar a cidade melhor. Costumo dizer que se a cidade é boa para o cidadão que vive nela, será muito boa para os que nos visitam.

 

R.A.: Do ponto de vista logístico, como administrar e ligar obras em portos, aeroportos, estádios e mobilidade urbana? Onde está a maior dificuldade?

I.E.: O planejamento dessas atividades é, de fato, bastante complexo, pois precisam ser atendidas as demandas atuais e, ao mesmo tempo, prever evoluções futuras. Como serão essas áreas daqui a uma, duas ou três décadas? Quais os impactos que causarão em nossa cidade? São desafios, tanto para os gestores, quanto para os técnicos envolvidos num projeto dessa envergadura.

 

R.A.: E quanto ao gerenciamento de consórcios, iniciativa privada e poder público? Como trabalhar as diferentes esferas almejando um objetivo comum?

 I.E.: Os consórcios constituídos de empresas em parceria com o poder público são soluções modernas que estão conseguindo viabilizar melhorias em cidades no mundo inteiro. É uma forte tendência. Cabe ao poder público garantir a sua melhor execução, preservando os interesses do cidadão. E cabe à sociedade acompanhar. É assim que funciona num regime democrático.

 

R.A.: O senhor afirmou que estes eventos deixarão legados físicos, sociais e institucionais. Passados os eventos, qual a expectativa quanto aos benefícios que ficam para a cidade?

I.E.: A cidade já começou a usufruir de muitos desses legados oriundos da realização dos jogos. O grande volume de investimentos que tem sido feito já contribui para a geração de emprego e renda, na dinamização da economia, nas interferências de melhorias urbanas, qualificação profissional. Tudo isso já está acontecendo e deverá se ampliar com a proximidade dos jogos. Penso que, além disso, Salvador possa plantar um legado institucional importante, pois temos uma oportunidade única de recuperar a nossa posição no turismo brasileiro e, ainda, avançar para consolidar uma posição forte como importante destino turístico das Américas, além de entrar na rota das cidades atrativas para a realização de megaeventos, não só esportivos. O Rio de Janeiro, por exemplo, vem consolidando a cada ano a sua festa de réveillon, e já, desde o ano passado, posiciona-se como o maior do mundo. Costumo dizer que, em Salvador, fazemos seis réveillons do Rio de Janeiro em uma só semana, a do carnaval, diante da magnitude e complexidade que nosso festa tem e pelo volume de pessoas que participa. Precisamos concentrar esforços nessa direção, atuar proativamente para conquistar novos espaços na cadeia produtiva do turismo, entretenimento e eventos esportivos, espetáculos e afins. Precisamos que todas as esferas da sociedade, governos, empresas e sociedade civil compreendam a importância de realizarmos as Copas de forma eficiente para que, ao mesmo tempo, possamos mostrar nossa cultura, nossa gastronomia, nosso patrimônio histórico e artístico, nossas belezas. Coisas que só a primeira capital do brasil possui.

 

*Isaac Edington será um dos palestrantes no Congresso ANEFAC que acontece de 11 a 14 de abril na Bahia

 

Fonte: ANEFAC

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